A ética de trabalho de Marta num mundo preguiçoso de Maria!

 (Baseado na história bíblica de Marta e Maria, as irmãs de Lázaro)


"É suposto Maria ser o nosso exemplo nesta história. Mas não consigo evitar pensar que Jesus não estava a ser realista. Alguém tem de fazer estas coisas. Não podemos ler livros ou ouvir sermões o dia todo. Eu sou pastor e nem eu posso fazer apenas isso. A minha família precisa de mim. A Igreja, o governo, os meus amigos- todos eles esperam que eu esteja sempre em cima do acontecimento. O estilo de Maria talvez funcione para um monge ou em modo retiro pessoal, mas a forma como ela retirou tempo para estar com Jesus simplesmente não se adequa ao nosso estilo de vida.

Além disso, Marta estava a tratar de coisas importantes. Ela não estava a conversar ao telefone, estava a servir, tal como a Bíblia diz em Romanos 12:7, por exemplo. Precisamos de Martas. Precisamos de servos. Precisamos de pessoas que gostam de trabalhar no duro. Alguém tem de lavar a loiça. Alguém tem de pôr a mesa e ligar o forno para que as Marias desta vida possam ter as suas epifanias espirituais.

Mas era o que Marta estava a sentir. É a forma como muitos de nós se sentem. E é perfeitamente compreensível. Esta não é a forma como Jesus vê as coisas. Marta implora a Jesus que faça algo (Lucas 10:40). Ela pensa: “De certeza que Jesus vai perceber o que está aqui a acontecer. De certeza que aquele que veio para servir os outros verá o problema que Maria me está a causar. De certeza que Jesus me apoiará.”


Mas Ele não o faz.

Ele começa por dizer o nome dela duas vezes. A repetição fala de emoção intensa, talvez como: “Mestre, Mestre…!” (Lucas 8:24), ou “Ó Jerusalém, Jerusalém…!” (13:34), ou “Simão, Simão…!” (22:31). É possível que Jesus estivesse aborrecido: ”Marta! Marta!”. Mas suspeito que ele estava mais em modo gentil e doce. João 11:5 diz: “Jesus amava Marta e o seu irmão Lázaro”. Jesus amava esta família. Marta era uma senhora generosa com os seus convidados e levava a hospitalidade de forma séria. Penso que Jesus não estava “fumegante”. Ele apenas queria que os seus amigos vissem o mesmo que a irmã de Marta estava a ver.

“Marta, Marta”, diz Jesus, “estás ansiosa e preocupada com muitas coisas”. A versão NIV da Bíblia diz que ela estava “preocupada e aborrecida”. A versão The Message diz: “Marta, querida Marta, estás a exagerar, não páras de trabalhar”. Muitos de nós conseguem relacionar-se com este raciocínio. Vamos dia após dia, mês alucinado atrás de mês alucinado: preocupados, aborrecidos, ansiosos, assoberbados. A cada mancha, projecto, cada-de-banho por limpar, a cada convidado surpresa, e cada responsabilidade que surge torna-se uma causa de grande pânico. Parafraseando Tito 3:3, vivemos como escravos de variadas paixões e prazeres, passando os nossos dias em caos e inveja, sendo assediados e assediando outros. Estamos todos muito ocupados, mas não com aquilo que realmente interessa.

É esse o ponto crucial da nossa história: “Marta, estás-te a passar, mas apenas uma coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte. Está sentada aos meus pés a aprender e a louvar. Não lhe vou retirar isso. A tua ocupação (“busyness”) não está errada. Mas não é a mais acertada”. Garantidamente, não devemos retirar este episódio como um esboço para todos os momentos de todos os dias. Se Deus esperasse que não fizéssemos mais nada além de nos sentarmos de pernas cruzadas no chão e a escrever os nossos apontamentos, a Bíblia poderia ter muito menos páginas. O exemplo de Maria não é uma convocação para uma vida contemplativa no mosteiro algures. Mas é um grande lembrete que devemos sempre colocar em primeiro lugar de importância aquilo que é realmente importante.

Para mim, a palavra mais importante em toda a história é “distraída”no versículo 40. Marta não está a fazer nada de errado. Ela apenas está distraída do que realmente é melhor. Está tão ocupada com a refeição que ela está a conceder a Jesus apenas os seus restos espirituais. Pessoalmente, tenho o paladar de uma criança de 4 anos e não gosto da maioria da comida à primeira vez. E não gosto especialmente de restos. Mas é isso que damos a Deus quando não colocamos as coisas mais importantes em primeiro plano. Ele não está apenas a observar-nos do céu quando temos um dia agitado. E ainda assim, Ele sabe quando deixamos escapar a “melhor parte”. Não é suficiente deixarmos os assuntos de Deus a preencher os pequenos furos do nosso dia. Sentarmo-nos aos pés de Jesus simplesmente nunca acontece. Devemos tirar tempo para aprender com Ele e tirar tempo para estar com Ele como uma prioridade.

A prioridade, de facto. Se alguém filmasse a tua vida durante uma semana e mostrasse o filme a um grupo de estranhos, o que é que eles diriam que é “a melhor parte” da tua vida? O que é que eles concluiriam acerca de algo que tinhas mesmo de fazer todos os dias? Lavar a roupa? Limpar a casa? Conferir o e-mail? Postar no Facebook? Ver um jogo? Eu sei que tens muitas coisas para fazer. Eu também tenho. Mas apesar de todas as preocupações nas nossas vidas, será que podemos dizer e mostrar que estar aos pés de Jesus é a única coisa realmente importante?"

Kevin DeYoung, Crazy busy