- Estamos a tentar fazer aquilo que Deus não espera que sejamos nós a fazer –


Sei que há pessoas preguiçosas por aí que precisam de tomar decisões radicais por Jesus. Sei que há pessoas a desperdiçar os seus recursos e a gastar tempo com programas de tv. Sei que há muitos cristãos nas nossas Igrejas confortavelmente sentados nos bancos sem fazer nenhum que precisam ser desafiados a não desperdiçarem a sua vida. Sou profundamente agradecido pelos pregadores e escritores que nos desafiam a arriscar tudo e tornar as nossas vidas significativas. Conheço um monte de cristãos adormecidos que precisam de uma chamada de atenção.

Mas também conheço pessoas como eu, pessoas que facilmente sentem o peso da responsabilidade, pessoas que se sentem facilmente mal por não poderem fazer mais. Eu era o aluno na escola sempre pronto a responder a qualquer questão do professor. Nunca faltei a uma aula na universidade e sentia-me mal se faltava a um serviço de culto na capela de lá. Fiz o ACT (American College Test) um ano antes de realmente ser necessário, por várias razões: orgulho, diligência, personalidade. As oportunidades facilmente se convertem em obrigações para mim.

E não estou só nisto. Há de certeza muitos cristãos que estão imensamente ocupados porque querem sinceramente ser obedientes a Deus. Ouvimos sermões que nos convencem a orar mais. Lemos livros que nos apelam a fazer mais pela fome mundial. Falamos com amigos que nos encorajam a dar mais, ler mais e partilhar mais. Todos os apelos soam tão urgentes. Os trabalhadores parecem ser tão poucos. Se não fizermos alguma coisa, quem fará? Queremos estar envolvidos. Queremos fazer a diferença. Queremos fazer aquilo que é esperado que façamos. Mas parece que simplesmente não há tempo.

PONTO Nº 1 E PONTO Nº 2
(E PONTO Nº 3 E PONTO Nº 4…)
A Bíblia é um livro grande e tem muita coisa escrita. A Bíblia diz muito acerca dos pobres, do casamento, da oração, do evangelismo, de missões, de justiça; diz muito acerca de muita coisa. Qualquer cristão pode fazer da sua situação o tema principal, ou pelo menos um dos temas principais. É fácil para os pregadores e professores, ou para velhos amigos cristãos– que devemos orar mais, dar mais, sermos mais hospitaleiros, partilharmos mais da nossa fé, lermos mais da Bíblia, voluntariarmo-nos mais. Talvez seja porque eu seja um bom pastor, ou um pecador desejoso de agradar a outros, ou um tipo sem o lado esquerdo do cérebro, mas eu sinto estes “mais” como imperativos pungentemente. É por isso que os mandamentos “não faças” são como uma espécie de lufada de ar fresco para mim. “Não matarás” – isto é duro se o levarmos mesmo a sério (leiam Mateus 5:21-26). Mas eu não tenho de colocar o sexto mandamento na minha lista de afazeres. Eu preciso apenas (apenas!) de identificar as obras da carne, morrer para mim mesmo e viver para Cristo.

Não matar, não cometer adultério ou não tomar o nome de Deus em vão não são mandamentos fáceis. Mas também não me deixam assoberbado. Fazer algo pela crise global da SIDA, pelos sem abrigo, por saneamento básico – estes sim, deixam-me assoberbado. Juntamente com estes, alguns dos conselhos que recebi acerca do ministério pastoral: certifica-te que fazes aconselhamento algumas horas por semana; certifica-te que estás a formar líderes; certifica-te que estás a fazer discipulado semanal; certifica-te que evangelizas; certifica-te que reservas meio-dia por semana para ler; certifica-te que estudas hebraico e grego todas as semanas. Que pessoa é capaz disto tudo?
E isto sem falar do trabalho humanitário e serviço comunitário. Sei que a Bíblia fala nos órfãos e nas viúvas. Mas o que fazer? Começar por onde? Como arranjo tempo? Como é que humanamente consigo cumprir todas estas obrigações? Tenho 5 filhos e um emprego a tempo inteiro. Tento gerir bem o meu dinheiro, partilhar da minha fé no dia-a-dia, fazer culto doméstico com a minha família, sair com a minha mulher de vez em quando, responder às necessidades da minha igreja, e orar pelos pobres e pelos perdidos. Será possível que Deus não me esteja a pedir que me envolva no combate ao tráfico de sexo?

ACALMANDO A PESSOA LOUCA DENTRO DE MIM
Antes que pensem que sou um total maluco e gritem: “Médico, cura-te a ti mesmo!” deixem-me apressar a responder: Eu percebo a Palavra. Eu sei que toda esta conversa acerca do que deveria estar a fazer e do que poderia estar a fazer não é saudável. Eu sei disso. E estou a sair-me bem. Não estou à beira de um esgotamento ou depressão. Não sinto a pressão de fazer a terra continuar a girar nos eixos certos. A maioria dos dias não me sinto culpado pelo que não estou a fazer.
Mas chegar a um lugar em que a minha consciência possa descansar, tem sido um processo. Acho que a maioria dos cristãos ouve estes apelos urgentes para fazer mais (ou já os sentiam internamente) e aprendem a viver com um pequeno sentimento de culpa que vem de não fazerem nada. Sabemos que podemos sempre orar mais, dar mais e testemunhar mais, e então habituamo-nos a viver num estado intermédio de desapontamento connosco próprios. Não era assim que o apóstolo Paulo vivia (I Cor. 4:4), e não é assim que Deus quer que vivamos (Romanos 12:1-2). Ou somos culpados do pecado - como a ganância, o egoísmo, a idolatria – e necessitamos de nos arrepender, ser perdoados e mudar. Ou então alguma coisa se está a passar. Tem-me tomado alguns anos, muita reflexão e uma quantidade significativa de afazeres desnecessários para compreender que no que toca a boas causas, “faço mais ou então estou a desobedecer” não é a melhor explicação a dar.
Eis alguns dos pensamentos que me ajudaram a sair do terror da obrigação total.
Eu não sou Cristo. O sermão de graduação do meu curso no Seminário foi dado por Gordon Hugenberger da Igreja Park Street em Boston. O sermão foi baseado nas palavras de João Baptista “Confesso que não sou Cristo”. O que Hugenberger queria enfatizar a este grupo de futuros pastores era simples: “Podem fazer parte da festa do copo de água mas vocês não são os noivos. Não são o Messias, portanto nem tentem ser. Juntamente com o credo dos apóstolos e a confissão de Westminster, certifiquem-se que confessam o mesmo que João Baptista confessou: Eu não sou Cristo.” Ainda tenho uma cópia do sermão e ouço-a sempre que encontro um leitor de cassetes. O nosso senso messiânico de obrigação pode ser mais grandiosamente demonstrado se regularmente confessarmos quem não somos.
Há boas notícias. Também fui ajudado com estas minhas questões de ocupação com um livro de Tim Dearborn chamado “Beyond Duty: A passion for Christ, a heart for mission”. Dearborn, director do departamento de Fé e desenvolvimento de World Vision argumenta que já há muito tempo que a Igreja motiva pessoas para trabalhar em missões devido a catástrofes naturais, desastres humanitários, grupos de pessoas oprimidas e não alcançadas e minorias exploradas. Mostramos estatísticas e histórias acerca das tristes falhas que ainda existem no mundo. As boas novas da morte e ressurreição de Cristo, Dearborn sustenta, foram transformadas em más noticias acerca de todos os problemas do mundo e de como temos de fazer muito mais para melhorar isto tudo. A mensagem que levamos para casa é esta: servir mais, dar mais, preocuparmo-nos mais, fazer mais. Dearborn relembra-nos que a mensagem do Evangelho é acerca de grande alegria, e de que Deus é a única esperança no mundo.
Preocuparmo-nos não é o mesmo que fazermos. Num encontro em 2010, John Piper disse que: “Devemo-nos preocupar com todo o tipo de sofrimento, especialmente com o sofrimento eterno”. Ele escolher o verbo preocupar com cautela. Ele não queria dizer que devíamos fazer tudo para acabar com o sofrimento, porque nós simplesmente não podemos fazer tudo acerca de todas as coisas. Mas podemos preocupar-nos. Isto significa que quando ouvimos acerca da pobreza ou do aborto legalizado ou da iliteracia bíblica, não somos indiferentes. Pensamos e sentimos que estas coisas não deveriam ser assim. Não nos iremos preocupar com todos os assuntos da mesma maneira mas há determinados assuntos que todos nos devemos preocupar, determinados assuntos que em ultima instância deverão inquietar o nosso coração e levar-nos a orar. Não nos preocuparmos com a as menores que são tornadas escravas sexuais não é uma opção para um cristão. Não fazer alguma coisa directamente para combater este mal, isso sim, é uma opção.
Temos diferentes dons e diferentes chamadas. Todo o cristão deve estar preparado para dar uma resposta pela esperança que temos (I Pedro 3:15), mas nem todos irão ser constantes evangelistas. Todos os cristãos deverão estar envolvidos na Grande Comissão, mas nem todos irão viajar pelo mundo. Qualquer cristão deve opor-se ao aborto, mas nem todos irão adoptar bebés ou voluntariar-se para trabalhar num centro de grávidas em crise. Precisamos de cristãos que gastem das suas vidas melhorando o estado da educação nas escolas e cristãos cujos sonhos passem por traduzir livros teológicos em inúmeras línguas. E precisamos de cristãos que não façam os outros sentirem-se culpados (e não se sintam eles próprios culpados) sempre que um de nós siga uma diferente motivação. Eu leio e escrevo muito. Mas isto não significa que outros se tenham de sentir culpados por não lerem ou escreverem tanto quanto eu. Cada um tem as suas capacidades e chamadas. Temos de conviver pacificamente com o facto de existirem outros cristãos que fazem diferentes coisas e melhor do que nós.
Lembremo-nos da Igreja. O único trabalho que tem de ser feito no mundo é o trabalho de Cristo. E o trabalho de Cristo é complementado com o trabalho do corpo de Cristo. A Igreja – que se ajunta em louvor ao domingo e que se espalha por todos os seus membros ao longo da semana – está apta a fazer exponencialmente mais do que qualquer um de nós sozinho. Posso responder à chamada de Cristo de uma ou de outra maneira, mas sou parte de um organismo e organização que pode responder e servir de variadas maneiras.
Posso orar em qualquer momento. A oração pode soar como o maior fardo de todos. Podemos sempre orar mais, e nunca conseguiremos orar por todas as necessidades do mundo. Mesmo que sejamos extremamente organizados e disciplinados, nunca conseguiremos orar consistentemente por mais do que um punhado de pessoas ou problemas. Mas isto não significa que as nossas orações estejam limitadas aos assuntos que assentamos no caderno. Se a tua tia tem uma cirurgia ao coração, ora imediatamente por isso. Quando um missionário partilha as suas dificuldades, ora nesse exacto momento por ele. Não deixemos que o momento evapore. Façamos uma pequena oração. Confiemos em Deus para os resultados e, na maioria dos casos, prossigamos.
Jesus não fez tudo. Jesus não supriu todas as necessidades. Ele deixou pessoas à espera na fila para serem curadas. Ele deixava uma cidade para ir para outra. Ele retirou-se para orar. Ele cansou-se. Ele não interagiu com a maioria das pessoas do planeta. Ele passou 30 anos em “treino” e apenas 3 a exercer o seu ministério. Ele não tentou fazer tudo. E ainda assim, fez tudo o que Deus lhe pediu para fazer.

TIRAR TEMPO PARA SER SANTO
Oro para que nada neste capítulo vos encoraje a abraçar a graça barata ou o facilitismo. Todos temos de carregar uma cruz. Mas é uma cruz que mata os nossos pecados, esmaga os nossos ídolos e ensina-nos acerca da loucura da auto-suficiência. É uma cruz que diz que eu farei tudo para seguir Jesus, não uma cruz que diz que eu farei tudo por Jesus.
Não há dúvida que alguns cristãos precisam ser abanados da sua letargia e ocuparem-se para o Reino de Deus. Mas muitos cristãos já estão ocupados o suficiente.  Posso aceitar o “redimam o tempo” (Efésios 5:16) as convocações para uma melhor gestão do tempo quando na realidade é mais uma chamada a sermos santos do que uma chamada a cumprirmos os sete hábitos de pessoas altamente competentes. Posso transformar qualquer “é” em um “deve ser”. Eu posso ignorar o papel que a necessidade e a proximidade desempenham no estabelecimento de obrigações divinas. Posso esquecer-me de que o meu círculo de influência será inevitavelmente mais pequeno do que o meu círculo de preocupações.
Acima de tudo, eu posso perder de vista as boas notícias de que o universo não será mantido pelo poder da minha palavra (Hebreus 1:3). Isso é trabalho de Cristo, e mais nenhum o poderá fazer. Aleluia – Ele nem espera que eu o faça.

Kevin DeYoung, Crazy busy