Três perigos a evitar (nesta vida de hoje).

Na agitação e frustração que a vida moderna é, os maiores problemas não são materiais ou temporais. Uma pessoa pode efectivamente trabalhar vinte horas por dia, seis dias por semana durante uma vida inteira e não sofrer muitos danos físicos. Na verdade, pode até sentir-se mais saudável assim. Mas se o desafio é mental – tal como é o caso da maioria dos empregos e para a maioria de nós – o efeito negativo no nosso corpo pode ser enorme. Por isso, não ignoremos os perigos físicos da ocupação (“busyness”). Lembremo-nos que as maiores ameaças são espirituais. Quando estamos sobreocupados (crazy busy), pomos as nossas almas em risco. O desafio não é apenas descartar alguns hábitos que temos. O desafio é que não deixemos escapar as nossas vidas espirituais. Os perigos são sérios, e são cada vez maiores. E muitos de nós estamos tão seguros quanto julgamos que estamos.

1.
O primeiro perigo é que a ocupação (“busyness”) pode roubar a nossa alegria. Esta é a ameaça espiritual mais imediata e óbvia. Como cristãos, as nossas vidas devem ser marcadas pela alegria (Filipenses 4:4), saber a alegria (Gálatas 5:22) e ser transbordantes de alegria (João 15:11). A ocupação (“busyness”) ataca isto tudo. Um estudo concluiu que as pessoas que andam de um lado para o outro experimentam mais níveis de stress do que um piloto de aviões ou polícia de intervenção. É isto que enfrentamos. Quando as nossas vidas estão frenéticas e desenfreadas estamos mais predispostos a sentir ansiedade, ressentimento, impaciência e irritabilidade.
(…) Obviamente todos temos semanas e meses em que tudo o que pode correr mal, corre efectivamente mal. Nessas alturas, teremos de batalhar por alegria no meio da ocupação (“busyness”). Mas muitos de nós terão de lutar neste momento por alegria para a próxima semana, por combater os hábitos desnecessários que fazem das nossas semanas uma infelicidade constante.
Ocupação (“busyness”) é como o pecado. Mata-a ou ela matar-te-á. Muitos de nós caem num padrão previsível. Começamos por ficar assoberbados com uma ou duas coisas, projectos. Depois sentimo-nos esmagados pela rotina diária. Depois desesperamos por paz novamente e juramos que alguma coisa vai mudar. Duas semanas mais tarde a vida é mais suportável e esquecemo-nos da nossa promessa até que o ciclo recomece novamente. O que não nos apercebemos é que a todo o instante temos sido desgraçados sem alegria, encaixados como uma tartaruga e cativantes como um gato. Quando a ocupação (“busyness”) ameaça a nossa alegria, ameaça a alegria de todos ao nosso redor.

2.
O segundo perigo é que a ocupação (“busyness”) pode assaltar o nosso coração. (…) João Calvino dizia que o coração do homem é como uma densa floresta de espinhos. (…) Sabem por que é que os acampamentos, as conferências e as viagens missionárias são quase sempre óptimas para o nosso crescimento espiritual? Porque temos de libertar do nosso tempo para lá estarmos. Saímos. Retiramo-nos durante uma semana e encontramos espaço para pensar, orar, adorar.
Para a maioria de nós, não é a heresia ou a apostasia que irão boicotar a nossa profissão de fé. São as preocupações da vida. Temos a revisão do carro. Depois o cano da água rompe-se. Os miúdos têm de ir ao médico. Temos de entregar o IRS. A conta bancária está quase a zeros. Os exames estão à porta. A tese está atrasada. O frigorífico quase vazio. Os cortinados precisam ser substituídos. A máquina da roupa faz um barulho esquisito. Isto é a vida para a maioria de nós, e isto entra em conflito com a nossa vida espiritual.
Jesus diz (na parábola do semeador – Marcos 4) que a Palavra é engolida pelo desejo de outras coisas. Não é que as posses por si só sejam as culpadas. O problema está em tudo o eu fazemos para tirar partido delas. Há algum espanto que as pessoas mais stressadas vivam nos países mais civilizados? Propriedades, barcos, autocaravanas, investimentos, time-sharing, motas de água, carros novos, casas novas, computadores, videojogos, maquilhagem, DVDs, downloads… todos eles tomam tempo. Já ouvimos inúmeros sermões acerca dos perigos do dinheiro. Mas o verdadeiro perigo vem depois de gastarmos o dinheiro. Uma vez possuindo, precisamos manter o que comprámos limpo, a trabalhar, e sempre actualizado. Se as preocupações da vida não nos afundarem, a manutenção fará.
Jesus sabe do que fala na parábola do semeador. Se devemos orar contra o diabo e pela Igreja perseguida, na forma de pensar de Jesus a maior ameaça à Palavra  é a exaustão. A ocupação (“busyness”) mata mais cristãos do que balas. Quantos sermões são despojados do seu poder por causa de jantares especiais ou de futebol? Quantos momentos de dor são desperdiçados porque nunca parámos para reflectir e aprender com eles? Quantos momentos de intimidade e cultos domésticos são toldados por treinos de desporto ou T.P.C.? Precisamos resguardar os nossos corações. A semente da Palavra de Deus não vai crescer e frutificar sem que haja uma poda de descanso, calmo e tranquilo.

3.
O terceiro perigo é que a ocupação (“busyness”) pode encobrir a podridão das nossas almas. O ritmo das nossas vidas pode deixar-nos fisicamente e espiritualmente doentes. Provavelmente isto não nos surpreende. Mas talvez o que não reconheçamos é que os nossos horários alucinados são sinais de que a doença já se instalou.
Desde 2002 que todos os Outonos me encontro com os meus colegas de Seminário. Comemos, rimos imenso e vemos muito futebol. Também partilhamos as nossas alegrias e batalhas do último ano. Um geralmente fala mais em descontentamento, outro em desânimo, outro em problemas no trabalho. Todos temos temas previsíveis. O meu é a ocupação (“busyness”). Quando chega a minha vez de partilhar, toda a gente já sabe de que tenho muito que fazer e que não sei como gerir tudo.
Apercebi-me que se todos os anos tenho o mesmo assunto, talvez o problema esteja em mim. O que é que diz acerca de mim se estou frequentemente assoberbado? O que preciso aprender comigo mesmo? Que promessas bíblicas eu não estou a acreditar? Que mandamentos estou a ignorar e que deveria estar a obedecer? Que mandamentos inventados por mim estou a obedecer e que deveria ignorar? O que está a acontecer com a minha alma, de forma a que ocupação (“busyness”) seja a minha constante batalha todos os anos?
A presença de ocupação (“busyness”) nas nossas vidas pode apontar para problemas maiores – uma necessidade de agradar aos outros, uma ambição desmesurada, um mau estar por falta de sentido. “ A ocupação (“busyness”) serve como uma reafirmação existencial, uma protecção contra o vazio”, escreve Tim Kreider. Obviamente que a nossa vida não será tonta, trivial ou sem significado se estivermos muito ocupados, com a agenda cheia o tempo todo. O pior perigo com a ocupação (“busyness”) é que provavelmente há maiores perigos que nunca teremos tempo de identificar.
A ocupação (“busyness”) não significa que és um crente fiel ou a frutificar. Significa simplesmente que estás ocupado, como toda a gente. E como toda a gente, a tua alegria, o teu coração e a tua alma estão em risco. Precisamos da Palavra de Deus para nos libertar. Precisamos de visão bíblica para nos endireitarmos . O que precisamos é do grande médico que cure as nossas agendas sobrelotadas.
Ah, se nós conseguíssemos arranjar um tempinho para agendar uma consulta.

Kevin DeYoung, Crazy busy