Vamos deixar de stressar por causa dos nossos filhos

Vivemos num mundo estranho. As crianças estão mais seguras do que em qualquer outra altura, mas a ansiedade parental é cada vez maior. As crianças têm hoje mais oportunidades e possibilidades de escolha, mas os pais vivem mais preocupados e aborrecidos. Despendemos  uma quantidade inédita de energia, tempo e atenção nas nossas crianças. E ainda assim, assumimos que as falhas serão culpa nossa porque não fizemos, eventualmente, tudo o que pudemos. Vivemos num tempo em que a felicidade e o sucesso futuro das nossas crianças está presente em todas as nossas outras preocupações. Nenhum esforço é demasiado exigente, nenhuma despesa muito elevada e nenhum sacrifício desmesurado se for para as nossas crianças. É como uma pequena vida pesada na balança, tudo depende de nós.

Podemos justificar esta obsessão com as crianças como uma espécie de amor sacrificial e devoção. E poderá ser. Mas também lhe poderemos chamar Kindergarchy: um governo infantil. Em “Debaixo de um governo infantil”, Joseph Epstein diz: “Toda a agenda está feita em função das crianças: da escola delas, das audições, saraus, com o seu cuidado, saúde, alimentação – as crianças são quem dá o nome a este jogo.” Os pais tornam-se pouco mais do  que empregados presentes para os seus filhos, como se elas fossem descendentes directas do rei sol.

Tornarmo-nos severos disciplinadores não é o antídoto para a "Kindergarchy". Epstein não incentiva os pais a serem mais rígidos, mas menos opinativos. Vale a pena relembrar que não há muito tempo o núcleo da família era menos centrado na criança. Epstein, agora nos seus sessentas, recorda nunca ter sido infeliz enquanto criança. E ainda assim, a sua vivência enquanto criança seria hoje considerada quase criminosa.
“A minha mãe nunca me leu uma história, e o meu pai nunca me levou a ver um jogo, embora tenhamos ido várias vezes aos Golden Gloves”. Quando comecei a minha modesta carreira atlética, os meus pais nunca compareceram a nenhum jogo, e eu teria ficado embaraçado se eles o tivessem feito. Os meus pais não conheceram nenhuma das minhas namoradas de liceu. Não tenho fotografias ou vídeos de quando era pequeno. O meu pai nunca me explicou acerca das abelhas, dos pássaros; os seus conselhos acerca de sexo, se bem me recordo, limitaram-se a um: “Tens de ser cuidadoso”.
Epstein não é cristão e não cresceu enquanto cristão. Não estou a relatar a sua infância como um exemplo para nós. A sua experiência não é tão importante quanto o facto de que não era assim tão incomum na altura. O que é importante aqui é a forma – qualquer um dos nossos pais poderá confirmar – como a família de hoje assenta na vida das crianças como nunca antes aconteceu. A humanidade nem sempre foi vivida com “Kindergarchy”.

O MITO DO PAI PERFEITO
A paternidade tornou-se mais complicada do que tem de ser. O que costumava acontecer é que os pais cristãos alimentavam as suas crianças, vestiam-nas, ensinavam-lhes acerca de Jesus e mantinham-nas afastadas de perigos. Hoje as nossas crianças têm de dormir de costas (não, espera, de barriga para baixo; não, esqueçam, de barriga para cima) enquanto ouvem o Baby Mozart. Têm de começar a aprender piano antes dos 5 anos e não podem deixar a cadeirinha do carro antes dos 5, 6 anos.

Está tudo tão embrulhado. Há tantas regras e expectativas. A parentalidade pode ser o último bastião do legalismo.Não apenas na Igreja, mas na nossa cultura. Vivemos numa sociedade permissiva que não apontará nenhum pecado nosso enquanto adultos, mas que contará as calorias dos almoços dos nossos filhos. Passo a vida a ouvir que as crianças não devem ingerir açúcar. Que mundo! Os meus pais eram cuidadosos, mas nós comíamos uma taça cheia de cereais com açúcar. A tijela da sobremesa podia ter marshmallows, nem sempre fruta. O nosso leite tinha chocolate. E às vezes, se íamos enfrentar uma manhã difícil, a gente tentava a sorte e ingeria um pouco de vitamina D.
Como pais cuidadores vivemos num estado de cuidado permanente, pensamos nas nossas crianças como seres extremamente frágeis e muito permeáveis. Ambas as presunções são equívocos. É mais difícil do que imaginamos danificar os nossos filhos e ainda mais difícil imprimir neles o sucesso tal qual imaginávamos. Os pais cristãos, em particular, muitas vezes agem com um determinismo específico. Tememos que meia dúzia de passos errados arruínem as vidas das nossas crianças para sempre, e ao mesmo tempo assumimos que a dose certa de protecção e educação irá produzir, invariavelmente, crianças cristãs. Leslie Leyland Fields está certa quando diz: “Um dos mitos mais resilientes e partilhados na paternidade é a de que educar cria a criança.”

UM DETERMINISMO DEBILITANTE
“Razões egoístas para ter mais filhos” é o livro provocador de Bryan Caplan. Eis a sua tese: os pais complicam a sua tarefa porque sobrevalorizam no quanto depende deles o futuro bem sucedido dos seus filhos. Ele cita diversos gémeos em casos de adopção, onde conclui que em cada pai reside o desejo de passar todas as características agradáveis– desde a saúde à felicidade e da inteligência ao sucesso e à afabilidade – mas que a genética tem mais influência do que o cuidar. Durante décadas, investigadores em diversos estudos seguiram as vidas de gémeos separados e que cresceram em diferentes famílias. Enquanto que a educação pode fazer uma enorme diferença a curto prazo, estudiosos argumentam que a longo prazo os gémeos apresentavam uma personalidade e comportamentos mais relacionados com a hereditariedade do que com o ambiente.

Caplan enfatiza – e isto é muito importante – que estes estudos foram feitos em famílias de classe média de países civilizados. As famílias que são aprovadas para adopção tendem a ser saudáveis e estáveis. Caplan não sugere que os pais não fazem diferença nenhuma. Na verdade, ele defende que a adopção internacional pode fazer uma diferença enorme na vida de uma criança. A sua contenção, contudo, é que dentro do padrão de uma família normal do mundo desenvolvido, as diferentes formas de educar determinam pouco o tipo de adulto que a criança virá a ser.
Curiosamente, Caplan menciona três traços que são mais susceptíveis à influência parental. As primeiras duas são a política e a religião. Para ser justo, Caplan é rápido a concluir que estas variações são ligeiras, e que no fim o educar não conta assim tanto para a orientação política e religiosa de uma pessoa. Mas mesmo que um compromisso ao nível do coração nestas  áreas possa ser medido – não tenho a certeza se pode ser – estas duas excepções podem ser significativas. Diferentes ambientes familiares nos gémeos não fizeram muita diferença na sua saúde ou sucesso, mas tiveram enorme influência na sua orientação religiosa e política.
O outro traço particularmente influenciado pela educação é a apreciação. Este estudo com os gémeos adoptados mostrou que os pais têm uma enorme influência na forma como os filhos sentem e relembram a sua infância. Na forma como nós enquanto pais contamos menos do que pensávamos para a pessoa que os nossos filhos se tornarão, mas de como contamos muito para o presente enquanto crianças e de como recordarão a sua infância anos mais tarde. Podemos não formatar a futura identidade da criança mas podemos marcar a sua infância no presente.
É por isso que uma das melhores coisas que podemos fazer pelos nossos filhos é descobrirmos uma forma de sermos menos frenéticos e desgastados. No estudo “Ask the Children”, a investigadora Ellen Galinsky entrevistou mais de uma centena de crianças com idades compreendidas entre os 8 e os 18 e perguntou-lhes qual seria a coisa que mudariam no trabalho dos pais, e a forma como isso os  incomodava. Os resultados foram impressionantes. Raramente as crianças demonstraram maior necessidade de tempo com os pais, mas para surpresa deles, quase todas desejavam que os pais não andassem tão cansados e stressados.

À semelhança, Galinsky perguntou às crianças que pontuassem os pais em uma dúzia de áreas. Na maioria, os pais saíram-se muito bem, com ambos os pais a terem classificação B. A maioria dos pais teve um A no que toca a fazerem sentir que os seus filhos são importantes para eles e na forma como gerem a agenda. A maior fraqueza, de acordo com os pais, era gestão da ira. Mais de 40% das crianças deram às suas mães e pais um C, D ou F na forma como controlavam o seu temperamento. Foi a pior classificação deste estudo. As nossas crianças, segundo Caplan, sofrem de stress em segunda mão. Tentando fazer tanto pelos nossos filhos, estamos na verdade a fazê-los menos felizes. Seria melhor para as nossas crianças se planeássemos menos saídas, nos envolvêssemos em menos actividades, fizéssemos mais pausas com eles, tentássemos ter mais ajuda com a manutenção da casa, e fizéssemos da sanidade parental uma prioridade maior.
O meu objectivo ao nomear o livro de Caplan não é tornar-nos a todos deterministas biológicos. Os nossos genes nunca explicarão todas as variações do comportamento humano. Como cristãos sabemos que Deus nos criou à Sua imagem, e somos moralmente responsáveis. O DNA não determina o nosso destino eterno. Mas mais uma vez, nem a parentalidade. É essa a questão. “Podemos ter uma vida melhor e uma família maior”, diz Caplan, “se admitirmos que o futuro dos nossos filhos não está nas nossas mãos”.

Temos de rejeitar as nossas boas intenções cheias de determinismo espiritual equivocado . Como se pode ver, nem tudo depende de nós. A Bíblia está cheia de exemplos de gigantes espirituais que tiveram crianças mal comportadas e de pais nobres vindos de ambientes poluídos. Enquanto a sabedoria proverbial da Escritura (Prov. 22:6) e as promessas da aliança (Gén. 17:7) nos dizem que bons pais cristãos e boas crianças cristãs geralmente estão relacionados, temos de considerar que Deus é soberano (Romanos 9:6-18), a salvação é uma dádiva (Efésios 2:8-9) e o Espírito sopra onde quer (João3:8). Tal como Fields escreve no seu artigo: “Pais com crianças descrentes, amigos com crianças na prisão, as descobertas da genética, e os heróis da fé em Hebreus 11 são todos poderosas lembranças desta verdade: iremos exercer a nossa parentalidade de forma imperfeita, as nossas crianças farão as suas escolhas, e Deus irá misteriosamente e espantosamente usar isto tudo para fazer cumprir os seus propósitos.

CLARIFICANDO ALGUMAS IDEIAS
Às vezes olho para a minha infância, penso em mim e nos meus três irmãos que agora caminham com o Senhor, e penso: “O que fez os meus pais serem tão especiais?”. Vi imensas séries e joguei imensos videojogos. Nunca aprendi a gostar de grânola e de vegetais. Nem sempre mastiguei com a boca fechada. E não me recordo de ter tido “aquela conversa” com o meu pai (a menos que a memória me esteja a falhar). Mas sempre soube que os meus pais me amavam. Tenho a certeza que nem sempre concordei com eles, mas sempre fiz tudo para lhes agradar.
Obrigaram-nos a ir à Igreja todas as quartas-feiras e duas vezes ao domingo. Obrigaram-nos a fazer sempre os trabalhos para casa. Tinham uma série de regras óbvias – que nos impediam de nos matarmos uns aos outros. Não toleravam determinado tipo de linguagem, e nunca os ouvi a falar mal. A mãe tomava conta de nós quando estávamos doentes. O pai dizia que nos amava. Nunca encontrei pornografia pela casa. O meu pai lia frequentemente a Bíblia à hora da refeição. Sabíamos que estávamos em sarilhos quando quebrávamos as regras. E que tudo ficaria bem se pedíssemos desculpa. Não me recordo de muitas conversas profundas, olhos nos olhos. Mas sabíamos quem éramos, onde permanecíamos e o que esperar. Ficarei vibrante se conseguir dar o mesmo aos meus filhos.

Fico preocupado quando vejo jovens pais muito certos de que toda e qualquer decisão irá firmar uma trajectória inalterável deles para o céu ou para o inferno. É como a minha assistente me disse uma vez:” Muitas mães e pais acham que são ou os melhores ou os piores pais do mundo, e ambos estão errados”. Será que tornámos a parentalidade uma coisa muito complicada? Será que a coisa mais importante será aquilo que fazemos ou quem somos enquanto pais? Eles recordarão o nosso carácter muito antes de se lembrarem das regras acerca da televisão ou do açúcar.
Quero crescer enquanto pai – em paciência e sabedoria e consistência. Mas também sei que não posso mudar o coração dos meus filhos. Não posso tomar decisões por eles. Sou responsável pelo meu coração e sou responsável por lhes ensinar os caminhos do Senhor. Mas não há nenhuma opção infalível – nem um conjunto de devoções familiares, Tolkien e nutrição – que irão despertar o desejo que queremos. Estou há 10 anos nesta coisa da parentalidade. Tento apenas ser fiel e arrepender-me por todas as vezes em que não sou.
Tenho 5 filhos e, além da graça de Deus, acho que há poucas coisas inegociáveis ao educar crianças. Quando pensamos acerca disso, o que é que a Bíblia nos diz acerca de educar crianças? A criação de crianças não é o tema principal das Escrituras. Deus não providencia assim tantas instruções acerca do relacionamento pai-filho, à excepção de que os pais devem ensinar aos seus filhos sobre Deus (Deut. 6:7; Prov. 1-9), discipliná-los (Prov. 23:13; Hebreus 12:7-11), ser agradecidos por eles (Salmos 127:3-5) e não irritá-los (Efésios 6:4). Falando entrelinhas, tudo o resto dependerá da família, da cultura, da sabedoria do Espírito e muita dose de tentativa-erro.
Há muitas maneiras de fazer burrada ao educar os nossos filhos, mas felizmente o Happy meal não é uma delas. Não há uma correlação entre o Ronald Mc Donald e a eterna rebelião.
(…)
Lembro-me de há uns anos ouvir Alistair Begg, citando outra pessoa, que dizia mais ou menos assim: “Quando eu era novo tinha 6 teorias e nenhum filho. Agora tenho 6 filhos e zero teorias.” Devo acrescentar: só precisei ter 5 filhos para se me acabarem as teorias.
Posso estar errado. Os meus filhos ainda são pequenos. Talvez esta não-teoria seja uma teoria por si só. Apenas sei que quanto mais tempo passo enquanto pai, mais me quero focar em fazer algumas coisas mesmo bem e não fazer tudo ao mesmo tempo. Quero gastar tempo com os meus filhos, ensiná-los acerca da Bíblia, levá-los à Igreja, rir-me com eles, chorar com eles, discipliná-los quando desobedecem, pedir-lhes desculpa quando eu errar, e orar muito. Quero que eles olhem para trás e pensem: “Não tenho a certeza do que os meus pais fizeram nem de se eles sabiam bem o que faziam. Mas sempre soube que eles me amavam e que amavam Jesus.”
Talvez os nossos corações estejam demasiado ocupados com medo e preocupação. Talvez estejamos a exagerar. E talvez estejamos a fazer das nossas vidas mais alucinadas do que precisam ser. À medida que não conseguimos evitar estar demasiado ocupados com as nossas crianças – até porque é um mandamento bíblico (Tito 2:5) – com uma boa dose de oração, alguma reflexão bíblica e um bocadinho de senso comum, talvez consigamos evitar stressar tanto acerca disto.

Kevin DeYoung, Crazy busy