Preces.


"Meu bom Deus, somos tão estúpidos até Tu nos dares qualquer coisa. Mesmo ao orarmos, és Tu que tens de orar em nós. Gostava de escrever uma prece bonita, mas falta‑me a matéria‑prima. Há em volta de mim um vasto mundo sensível que eu deveria ser capaz de usar como instrumento em Teu louvor; mas não consigo. Todavia, num qualquer momento insípido em que eu talvez esteja a pensar em cera para o soalho ou em ovos de pombo, as primeiras palavras de uma prece bonita poderão emergir‑me do subconsciente, levando‑me a escrever um texto inflamado. Não sou filósofa, caso contrário conseguiria entender estas coisas.

Se eu me conhecesse plenamente, meu bom Deus, se conseguisse descobrir em mim própria todos os traços pedantes e egocêntricos, falhos de sinceridade, o que seria eu, afinal? Mas que faria eu em relação a estes sentimentos que ora são medo, ora alegria, que se encontram demasiado fundo para que o meu entendimento os alcance? Tenho medo das mãos insidiosas, oh, Senhor, que buscam às apalpadelas nas trevas da minha alma. Por favor, sê a minha sentinela contra elas. Por favor, sê a barreira no alto do desfiladeiro. Será que conservo a minha fé somente por preguiça, meu bom Deus? Esta, porém, é uma ideia que agradaria a alguém racional até à medula."

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"Oh, Senhor, peço-Te, faz que eu Te deseje. Seria para mim a maior das beatitudes. Não apenas desejar-Te quando penso em Ti, mas sim desejar-Te constantemente, pensar em Ti constantemente, sentir esse desejo a pulsar dentro de mim, senti-lo como um cancro dentro de mim. O desejo matar-me-ia como um cancro, e essa seria a satisfação suprema."

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"Mediocridade é um termo severo para aplicarmos a nós mesmos, contudo, vejo que se ajusta tão bem à minha pessoa que me é impossível não me apodar de medíocre - embora compreenda, no preciso momento em que o faço, que só quando estiver velha e caduca é que me resignarei a esse epíteto. Resignar-me a ele, parece-me, seria resignar-me à Desesperança. Deve haver algum meio de os naturalmente medíocres escaparem à mediocridade[.] Esse meio é seguramente a Graça. Deve haver alguma forma de lhe escapar, mesmo quando sabemos que estamos abaixo desse nível. Talvez percebermos que estamos abaixo desse nível seja um primeiro passo. Digo que se ajusta bem à minha pessoa; mas a verdade é que sou abaixo de medíocre. Andarei sempre aos tombos entre a Desesperança e a Soberba, encarando primeiro uma e depois a outra, avaliando qual delas me faz sobressair mais, qual delas me faz sentir mais confortável, mais descontraída. Nunca engolirei um grande naco de nada. Hei-de mordiscar nervosamente aqui e além. O temor a Deus é uma coisa boa; mas, meu Deus, não é este nervosismo[.] É algo colossal, grandioso, magnânimo. Tem de ser um júbilo. Todas as virtudes têm de ser vigorosas. A virtude tem de ser a única coisa vigorosa nas nossas vidas. O pecado é vasto e cediço. Nunca conseguimos acabar de o comer, nem nunca o conseguimos digerir. Temos de o vomitar. Talvez esta declaração seja demasiado literária - não posso deixar que este meu diário se torne hipócrita.
Como é que posso viver - como é que hei de viver. Obviamente, a única maneira de viver retamente é abdicar de tudo. Mas não tenho vocação, e talvez esse caminho esteja errado, seja como for. Mas como eliminar esta minha maneira exigente e cata-espinhas de fazer as coisas - quero tanto amar a Deus sem peias. Ao mesmo tempo, quero todas as coisas que parecem opostas a esse amor - quero ser uma excelente escritora. Todo e qualquer êxito terá tendência a subir-me à cabeça - inconscientemente, até. Se alguma vez conseguir tornar-me excelente escritora, não será porque sou uma excelente escritira, mas sim porque Deus me deixou arrecadar os louros de algumas das coisas que Ele caridosamente escreveu para mim. No momento atual, não parece ser esta a postura d'Ele. Não consigo escrever uma linha que seja. Mas vou continuar a tentar - eis o que importa. E, em cada fase estéril, irei recordar-me de Quem está a criara obra quando esta fica pronta e de Quem não a está a criar neste momento. Nos dias que correm, pergunto a mim mesma se Deus alguma vez tornará a escrever alguma coisa para mim. Ele prometeu-me a Sua Graça; não estou tão certa de que me conceda a outra. Talvez eu não me tenha mostrado suficientemente grata pelas dádivas recebidas.
Os desejos da carne - excluindo os do estômago - foram-me subtraídos. Não sei por quanto tempo, mas espero que seja para sempre Dá-me muita paz, ver-me livre deles."

Flannery O'Connor
in Um diário de Preces.