Adoração irresistível

O Salmo 23 é dos mais conhecidos na Bíblia, dos mais decorados, com apenas 6 versículos. 
Logo no versículo 1, o Senhor é apresentado como um pastor de ovelhas, símbolo muito comum na paisagem ali das terras de Israel e da região em volta, no actual oriente médio. Depois, a metáfora muda para um anfitrião que recebe, nos versículos 5 e 6. Apesar da mudança de imagem, o salmista vai dizer o que está por detrás da sua forma de se relacionar com Deus. O que acontece na sua vida, no seu contacto com Deus, mostrou-lhe algumas riquezas particulares:

Deus é aquele que é o nosso provedor (nada nos faltará). Esse cuidado de provisão material é ampliado quando vemos que “em verdes pastos me faz repousar e me conduz a águas tranquilas”. O “refrigera a minha alma” terá uma tradução mais correcta, se dita assim: “restaura-me o vigor”. O salmista descobre que Deus é o provedor e também que Ele é a razão de ser do seu equilíbrio pessoal. Ele é quem traz tranquilidade, repouso, que sustenta, que organiza o coração, ou seja, Ele é o provedor material mas também psicológico. Mais do que isso, o salmista vai percebendo a acção de Deus na sua vida, e que Ele o guia pelas “veredas da justiça”, mesmo quando o salmista tivesse de andar por um vale de trevas e de morte (podemos imaginar a ovelha perdida em lugares escuros). O texto prossegue com a esperança: “não temerei mal algum” ou perigo algum porque “Tu estás comigo, a tua vara e o teu cajado me dão protecção”. O salmista descobre que Deus é a razão da direcção da Sua vida. Uma ovelha tomando um caminho errado significa a sua morte, assim como nós tantas vezes na vida não sabemos. Se não for a bondade, a Graça que nos impede de entrar por caminhos complicados, que seria de nós? O salmista olha e vê que Deus interferiu nas escolhas da sua vida. O seu coração é tomado por uma adoração cada vez mais irresistível.

No final do salmo, diz uma coisa muito interessante: que Deus prepara um banquete para Ele (já não temos mais a imagem do pastor de ovelhas, mas de um anfitrião muito especial) à vista dos seus inimigos. O inimigo, nos salmos, é alguém que quer destruir a vida de alguém, que está a querer a sua morte. A relação de inimizade coloca sempre a ideia do justo e principalmente do rei David correndo perigo de morte diante das ameaças à sua volta. E ele começa a descobrir que Deus não é só o que vimos, como provedor, mas que Deus vai tão longe que é capaz de lhe dar um cuidado especial, servindo-lhe um banquete na cara dos seus inimigos. A atitude de Deus é absolutamente cuidadosa, como diz o versículo 5, a ponto de dizer que Deus unge a sua cabeça com óleo. O que quer dizer isso? Algumas versões da Bíblia colocam este sentido desse ungir, como uma prática muito comum no oriente médio antigo, o texto diz: “tu me honras ungindo a minha cabeça com óleo”. Deus tratou o salmista (e trata-nos) numa amizade tão íntima, cheia de mimo, numa atitude tão diferenciada que o trata com honra (o óleo significava isso) e serve o seu cálice até transbordar. Ou seja, ele recebe o salmista com alegria. Cresce o seu desejo de adorar a Deus por causa do que Ele tem feito. No versículo 6 o salmista chega à conclusão final da sua experiência com Deus, a sua declaração de fé: eu sei, eu tenho certeza que a bondade e a fidelidade de Deus me vão acompanhar todos os dias da sua vida. O que é que ele diz? Ele descobre que Deus é bom, sim. O sol levanta-se todos os dias, os pássaros cantam, temos alimento, temos chuva, temos a renovação dos recursos. Pois é, a bondade de Deus, aquilo que ele dá a todos, atingiu a vida do salmista. Mas não só. A fidelidade, ou o amor, ou a sua atitude de graça permanente - aquilo que Deus tem só com o povo da Aliança - ele descobre que aquilo que Deus dá para toda a gente, e aquilo que Deus dá só para aqueles que estão numa aliança consigo, que os dois vão segui-lo todos os dias da sua vida. Mas não somente.

A palavra do texto original dá a ideia que estas duas coisas o vão perseguir por toda a sua vida. Temos aqui uma espécie de santa paranóia, alguém que se sente absolutamente atingido pelo amor irresistível de Deus. E diante disso, quando ele descobre que Deus é a razão porque ele não ficou louco na vida, a razão porque na hora dos conflitos mais difíceis e incompreensíveis da vida ele o tratou de um modo tão especial e o honrou, dando-lhe alegria e força em momentos totalmente inexplicáveis, e que essa bondade e fidelidade estão atrás dele a toda a velocidade, então ele pode dizer: “habitarei na casa do Senhor para todo o sempre”.
Uma vez que eu descobri quem Deus é, o que Ele faz e o que Ele fez por mim, eu fui tomado de uma adoração irresistível, eu nunca mais deixo de ir ao templo, nunca mais deixo de agradecer, sou tomado de uma necessidade impetuosa, profunda e dominante de culto que deve ser dedicado a Deus. Quando se descobre quem Deus é, o que Ele faz e como ele abençoa a nossa vida, à semelhança do salmista, somos tomados por uma adoração irresistível. 

- Texto baseado numa meditação de Luíz Sayão -