Salmos 137 (de David ou Jeremias)


 




1.       Este salmo lembra-nos de que estávamos desesperados (cativeiro na Babilónia)

Evitamos estes salmos porque eles colidem com a imagem de Deus que queremos ter. Muitas vezes queremos justiça. Mas não sei que tipo de justiça! Mas tento pensar que não é a justiça presente no Salmo 137, último versículo: "Feliz aquele que pegar nos teus filhos e os esmagar contra a pedra". Esmagar as cabeças dos filhos dos nossos inimigos sobre as fundações de uma cidade em ruínas é indescritível. Não me agrada nada esta ideia, e é daquelas partes da Bíblia que dá vontade de não ter de lidar com ela. De a apagar, até.

Mas e se esse é o ponto?

E se este salmo, e outros como ele, nos lembram que estamos em apuros? Na leitura deste salmo entramos num mundo bem diferente das nossas comunidades seguras, onde armazenamos o conhecimento da Bíblia e acumulamos o amor e a amizade dos crentes. E se os nossos corações anestesiados forem abertos para que possamos experimentar a condição desesperada da raça humana e deste mundo caído? E se cantando este salmo nos lembrarmos do que é bom e o que o Senhor exige de nós? E se lendo este salmo talvez possamos desenvolver misericórdia pelo mundo caído?

2. Este salmo lembra-nos de quem é santo e quem não é.


Quando cantamos esses salmos de ira e julgamento, fazemos perguntas: “Como é que pudeste, Deus? Como é que podes  ser tão impiedoso? Tão odioso?”

Mas aqui, nestas questões somos imediatamente confrontados com um Deus infinito indomável que não nos responde a estas questões. Estamos perante e sob o Rei do Céu e da Terra, a rocha cuja "obra é perfeita, porque todos os seus caminhos são justiça, Deus é fiel e sem iniquidade; justo e recto é ele" (Deuteronómio 32: 4).

É um trabalho incrível de fé, nascido pela graça, que nos leva a confiar num Deus que não podemos compreender. Nós não sabemos os seus caminhos, e questionamos-nos acerca deles, mas somos lembrados que ele é santo e nós não somos; ele é infinito e nós não somos; ele é a própria misericórdia e nós não somos.

3. Este salmo recorda-nos que podemos verbalizar maus pensamentos a Deus.

O Salmo 137 foi escrito por alguém que tinha visto a guerra e o cativeiro babilónico por cerca de 70 anos e cujo povo tinha sido saqueado pelos assírios. Eles viviam com raiva e desespero, acreditando que o único caminho para a paz, o único caminho para casa era a total destruição física de todos os seus inimigos, presente e futuro. Ao mesmo tempo, o que é reivindicado não é uma vingança pessoal, mas um desejo de que Deus seja finalmente vingado, que a sua glória seja vista.

Tenho dificuldade em entender esta urgência porque eu sou portuguesa, e vivo em paz imerecida, sem medo de inimigos. Nunca estive no meio da guerra. Nunca enviei os meus entes queridos para a guerra.

O Salmo 137, no entanto, é escrito por pessoas que conheceram os horrores da guerra durante várias gerações. Cansados ​​e desejosos de saber se alguma vez viverão em paz, se as suas orações se secam nas suas gargantas, eles sonham viver dentro de fronteiras seguras da sua terra natal, comemorando o shabbat ao redor da mesa, cultivando a terra, rindo com os vizinhos .

Quem escreve este salmo acredita que a esperança se baseia na vingança de Deus, eliminando os seus inimigos.

4. Este salmo lembra-nos que Cristo veio para nos resgatar.

A vida, morte e ressurreição de Jesus é toda a Bíblia, desde o Velho testamento. Em Lucas 24:27, encontramos o próprio Cristo, "começando por Moisés e todos os profetas, interpretando-lhes em todas as Escrituras as coisas referentes a si mesmo." Ao ler as Escrituras desejo ter sempre presente que este livro é sobre o Pai enviar alguém para nos resgatar. Temos de olhar para ele em lugares improváveis ​​e até aterrorizantes, como o Salmo 137.

Estamos cansados ​​de guerras e de injustiças. Mas precisamos não esquecer de como a nossa vida de paz foi conquistada: através da violência da ira do Pai que foi derramada sobre o seu único Filho, Jesus. Ele travou guerra para que possamos viver em paz. O mal é finalmente derrotado e somos salvos!

A libertação é selada com o sangue do filho amado do Pai: "Feliz aquele que pegar nos teus filhos e os esmagar contra a pedra" – agora já faz mais sentido.

O Deus ilimitado do céu e da terra assume o manto quebrado de carne humana em Jesus, para que pudesse ser atirado contra a rocha, a fim de que nenhum dos seus filhos (nós) nunca o seja.